Um democrata

O mundo lusófono perdeu aquele que talvez tenha sido o seu político de maior expressão mundial: Mário Soares, ícone do processo de redemocratização de Portugal deflagrado com o movimento político-militar que passou à história como a Revolução dos Cravos, uma das mais românticas páginas da história contemporânea daquele país.

O estadista da península inicia sua militância política nas fileiras comunistas, em oposição ao Estado Novo, regime de corte fascista implantado por Antonio de Oliveira Salazar. A ousadia custa-lhe caro. Por várias vezes deu com os costados na cadeia, preso pela PIDE, a terrível polícia política salazarista. Foi exilado em França. Ao longo de sua trajetória política deriva do ideário comunista para a social-democracia, movido, segundo seus detratores, pelas “comodidades da vida burguesa”. Funda no exílio, com o apoio dos sociais-democratas alemães liderados por Willy Brandt, o Partido Socialista Português, a 19 de abril de 1973.

Com a eclosão da Revolução dos Cravos, a revolução sem tiros, e o consequente colapso da ordem autoritária, Mário Soares é alçado ao primeiro plano da política lusitana, concorrendo decisivamente para a consolidação da democracia em sua terra, de que o fim do expansionismo colonialista é marco fundamental.

Sua trajetória política atinge as culminâncias quando passa a exercer os cargos de primeiro ministro (1976/1978 – 1983/1985) e presidente da república (1986 e 1996).

Torna-se a cara da democracia portuguesa aos olhos do mundo. Deixa um legado de dignidade, coragem cívica e espírito público.Do livro O MUNDO EM PORTUGUÊS, um diálogo entre Mário Soares e o então presidente Fernando Henrique Cardoso, que li já lá vão uns quinze anos, extraio uma fala sua, de oportuna lembrança nestes tempos de tanto ódio, violência e desencanto: “Quando as pessoas vivem sem horizontes, sem saídas, andam à procura de um emprego, andam à procura duma realização pessoal, e, por outro lado, vêem na televisão diariamente o espetáculo das pessoas que vivem bem, isso torna-se insuportável. Daí os sentimentos de revolta, a fuga para a droga, que é um fenômeno do mundo contemporâneo mas que, numa sociedade tão complexa como a brasileira, certamente se deve fazer sentir intensamente.” Alguém contesta?

Hélio Leitão é advogado

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