Síndrome de Down – chega de romantismo

Hoje, dia 21/03, dia Internacional da Síndrome de Down,  gostaria de falar sobre alguns vícios linguísticos que cometemos devido ao preconceito cultural a que fomos submetidos desde sempre.

Estamos vivendo um novo tempo. As pessoas com deficiência ou limitações de qualquer espécie não ficam mais escondidas e trancafiadas em casa sendo tratadas como “coitadinhas”. Essas pessoas agora estão aí na sociedade estudando, trabalhando, contribuindo.

Por essa razão meu post de hoje tem a pretensão de alertar sobre a nossa fala que, mesmo saindo sem querer, mostra exatamente o tamanho do preconceito embutido:

Portador de deficiência – quem porta algo (documentos, bolsa, carteira, guarda-chuva) tem a escolha de levar ou não, o objeto em questão, consigo. Com a deficiência não existe essa escolha. Então o correto é: PESSOA COM DEFICIÊNCIA.

Pessoas com deficiência são especiais – não existe isso! Pessoas com deficiência necessitam de atendimento especializado, o que ficou comumente chamado de necessidade especial e depois vulgarmente falado: pessoas especiais. Meu filho necessita de tratamentos com especialistas: Fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, nutricionista. Mas isso não o torna especial, muito menos a mim.

Mas eles são tão carinhosos! – essa frase é geralmente utilizada quando uma pessoa acaba de saber que a criança ou adolescente tem Síndrome de Down, numa tentativa carinhosa de negar a informação anterior. A conjunção ‘mas’ é utilizada para contrastar ou opor ideias em frases, por isso é usada, neste caso, para tentar amenizar a informação que acabou de ser dada sobre a Síndrome de Down. Qualquer pessoa tratada com carinho aprende a ser carinhosa. Isso não é uma condição da pessoa com esta síndrome.

Mas eles são tão inteligentes! – a mesma conjunção ‘mas’ desta vez usada para amenizar a deficiência intelectual. Segundo uma frase que li, atribuída a Piaget, mas não sei se realmente é dele, diz: “nasceu gente, é inteligente”. A inteligência é inerente ao ser humano devido à complexidade que seu cérebro possui para articular os vários mecanismos humanos: falar, andar, pensar, sentir. Não se pode atribuir inteligência apenas aos processos cognitivos ou escolares. A pessoa com deficiência intelectual pode aprender os conteúdos escolares até no mesmo ritmo que os alunos sem deficiência, desde que sejam oferecidas as estratégias adequadas de estímulo-ensino-aprendizagem.

Bem, esse assunto terá continuação em outros posts, por hora vou parando por aqui, devido ao tamanho do texto.

Mas antes quero esclarecer por qual motivo escrevi no título do texto “chega de romantismo”: existe um mito romantizado em torno da Síndrome de Down quando se fala que nossos filhos são anjos, que eles tem o cromossomo do amor e etc.

Na verdade, esses bebês, crianças ou adultos são pessoas extremamente fortes e resistentes ao fracasso. Pessoas que aguentam horas de tratamentos exaustivos semanais em prol de uma estimulação para que eles façam o que é básico ou simples para os que não tem a Síndrome, como andar ou falar. Porém, ao contrário de muitos, fazem tudo isso com sorriso no rosto, como se dissessem: tenho muito pra oferecer, não desista de mim.

Débora Menezes – Pedagoga e Coach Educacional

Mãe do Theo, de 2 anos e 3 meses, que tem Síndrome de Down.