De volta para o passado

A escolha do tema sobre que escrever é sempre um momento de angústia para quem o faz regularmente. Verdadeiro parto intelectual. Uma vez definido, a pena corre livre, solta. Ocorreu-me para o artigo que foi veiculado em março passado escrever sobre o Dia Internacional da Mulher. Refutei a ideia. Não me pareceu original discorrer sobre efemérides, por mais que as mulheres o mereçam. Fui atrás de outro assunto. Acabei discorrendo sobre o golpe que se pretende dar na previdência pública.

Animei-me, agora, a tratar do assunto, em razão das desastrosas declarações do presidente Michel Temer em alusão à data, quando disse ter “… admiração do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos”. Não se contendo nas calças, disse mais reconhecer a grande contribuição das mulheres às ciências econômicas pelas oscilações de preço que percebem quando vão ao supermercado…

Já não bastassem as escolhas exclusivamente masculinas quando da composição de seu ministério, Temer fez declarações que atentam contra a dignidade da mulher brasileira e suas lutas históricas pela igualdade de direitos. Um verdadeiro insulto. Em tempos em que as mulheres lutam diariamente por direitos iguais aos já assegurados aos homens, as asneiras do senhor presidente revelam o quão dissociado está seu pensamento da realidade que o nosso estágio civilizatório exige e buscamos construir.

O presidente parece ainda cultuar valores de uma sociedade arcaica, machista e patriarcal, bem aos moldes do Brasil imperial, quando juristas como Lourenço Trigo de Loureiro, ali pelos idos de 1882, prelecionando sobre a família, ensinava que “… a boa ordem exige imperiosamente que haja um chefe nesta sociedade, e não pode ser senão um dos dois; e como, por outra parte, a mesma natureza indica ser o homem, por ser o mais inteligente, o mais experimentado, e o mais ágil em todos os negócios da vida, e ao mesmo tempo o mais forte; com razão e justiça devem competir a este alguns direitos especiais, os quais constituem o poder marital.”

Passei a temer a revogação da Lei Áurea.

Hélio Leitão – Advogado
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