Apesar dos avanços tecnológicos no setor financeiro, os povos indígenas continuam enfrentando sérias dificuldades
de acesso a serviços bancários básicos.

Em plena era do PIX, aplicativos e bancos digitais, muitas comunidades ainda precisam se deslocar por longas distâncias para sacar o Bolsa Família, benefício essencial para milhares de famílias indígenas.

A contradição é evidente: a tecnologia avança, mas não alcança todos. A ausência de infraestrutura nas aldeias,
como internet estável e energia elétrica contínua, impede o uso pleno dos meios digitais.

Além disso, fatores como a barreira linguística, o baixo letramento financeiro e a ausência de atendimento adaptado à realidade indígena agravam o cenário de exclusão.

Iniciativas pontuais, como os projetos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em parceria com a OCDE e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe, vêm promovendo oficinas de educação financeira em aldeias no Pará.

Contudo, a falta de continuidade e de escala dessas ações impede que se transformem em políticas públicas eficazes.

Mesmo com linhas de crédito específicas, como a recentemente lançada pelo Banco do Nordeste, os entraves persistem.

Falta confiança, conhecimento sobre os produtos financeiros e apoio técnico-cultural para sua utilização.

É urgente que o sistema bancário, em conjunto com o Estado, promova ações concretas de inclusão: instalação de pontos de atendimento em comunidades, capacitação de indígenas como agentes financeiros e desenvolvimento de plataformas acessíveis e adaptadas às culturas locais.

A inclusão financeira dos povos originários não é apenas uma questão de acesso ao dinheiro, mas de cidadania, autonomia e respeito à diversidade.

Em um país que é marcado por muitas desigualdades, avançar nesse tema é um passo extremamente necessário
para a justiça social.

Ana Carolina Franco, presidente da Comissão de Direito Bancário da OAB-CE