Ângela Ro Ro não foi apenas uma cantora. Foi uma das primeiras artistas brasileiras a assumir-se lésbica de forma pública, quando a coragem custava caro e a repressão era regra. Pagou com o corpo: foi espancada cinco vezes, perdeu a visão de um olho, sofreu perseguições e estigmatizações. Ainda assim, não recuou. Fez de sua voz rouca e irreverente um grito de resistência. Transformou dor em música, violência em irreverência, silêncio em orgulho.

Nos últimos anos de sua vida, Ângela nos deixou outro legado que ainda precisa ser visto com a devida seriedade: a coragem de falar do envelhecimento e da saúde mental das mulheres lésbicas. Sem esconder fragilidades, falava da solidão, das dificuldades financeiras, da luta para manter corpo e mente em equilíbrio. Em entrevistas, dizia com ironia e lucidez: “a minha fragilidade é forte”. Essa franqueza escancarou uma realidade que permanece invisível: mulheres lésbicas idosas seguem enfrentando isolamento, ausência de reconhecimento legal, falta de políticas públicas específicas e redes de apoio precárias.

A Constituição de 1988 consagrou a dignidade da pessoa humana como fundamento da República. Esse princípio não é apenas retórico: impõe ao Estado e à sociedade a obrigação de garantir que todas as mulheres lésbicas — jovens, adultas e idosas — tenham assegurado o direito de existir, amar, envelhecer e viver com saúde integral, cuidado e respeito. A coragem que Ângela representou na juventude precisa traduzir-se hoje em garantias jurídicas concretas contra a lesbofobia estrutural, em políticas públicas que promovam moradia, acesso à saúde, proteção previdenciária e visibilidade.

Honrar Ângela Ro Ro é mais do que reverenciar sua arte. É assumir um compromisso político, jurídico e ético: que nenhuma mulher lésbica seja violentada por ser quem é, nem condenada a envelhecer na solidão ou na invisibilidade. Memória sem ação é homenagem vazia; e a vida de Ângela exige de nós ação, coragem e justiça.

A OAB/CE, por meio desta Comissão, reafirma o compromisso de enfrentar a LGBTfobia estrutural, exigir políticas públicas que assegurem cuidado, moradia, saúde integral e reconhecimento legal às mulheres lésbicas idosas, e romper o silêncio que insiste em apagá-las.

Ângela Ro Ro vive em cada mulher que resiste, canta e envelhece com dignidade.

 

Thayná Silveira

Membra Efetiva da Comissão de Diversidade Sexual e Gênero da OAB-CE