Outubro chega e com ele as campanhas, os laços, as cores, os lembretes. Mas será que, de fato, estamos despertos? Como paciente oncológica, aprendi que o medo de descobrir é, muitas vezes, maior que o medo da doença. “E se eu tiver algo?” é o pensamento que silencia a prevenção. Só quem vive o diagnóstico entende que o verdadeiro alívio está em ter descoberto a tempo — em ter ouvido o corpo quando ele sussurrou, antes que precisasse gritar. A medicina já garante: quando o câncer de mama é identificado precocemente, as chances de cura ultrapassam 95%. Ainda assim, uma doença tão falada, tão simbolicamente vestida de rosa, continua matando milhares de mulheres todos os anos. Por quê? Porque o autocuidado ainda não é prioridade. Porque o medo, a correria, a culpa e a cultura do “depois eu vejo” continuam vencendo.
No dia 1º de outubro, procurei uma roupa rosa para celebrar o mês. Entrei em um grande shopping de Fortaleza e não vi uma vitrine sequer preparada para a campanha. É como se o Outubro Rosa fosse assunto apenas de hospitais, conselhos e instituições — e não da sociedade. Falta engajamento, falta empatia, falta pertencimento. E é preciso repetir: você, mulher, é sua maior prioridade. O seu corpo é a sua casa, o seu abrigo, o seu templo. Ele é grandioso demais para ser abandonado, esquecido ou negligenciado por qualquer motivo — seja o trabalho, a família, a rotina ou o medo. Cuide-se com intencionalidade. Observe seus sinais. Vá ao médico. Faça o exame. O medo vai estar aí, ele sempre vai existir. Mas a diferença está no que fazemos com ele. A mesma energia que o medo usa para te paralisar, você pode usar para transformá-lo em coragem. Coragem para agir, para se cuidar, para viver.
O Outubro Rosa é sobre cura, mas antes de tudo é sobre consciência — sobre escolher a vida todos os dias. Então, seja forte e corajosa, mulher. A sua vida vale o cuidado.
Priscilla Farias é paciente oncológica de câncer de mama. Advogada e coordenadora do Núcleo de Saúde da Comissão da Mulher Advogada da OAB-CE