
O discurso empolga, afinal fala aos medos de uma população acuada e inocente. Tem o apelo incontrastável das soluções fáceis. Carreguemos todos uma arma à cinta e o problema se resolve como que por encanto. Seria simples assim. Uma reflexão desapaixonada sobre o tema, todavia, conduz a conclusão outra.
Estudos levados a cabo pelo professor Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador de estudos da Flacso – Faculdade Latino Americano de Ciências Sociais, autor do Mapa da Violência, aponta que, contrariando o senso comum, o cidadão que sai às ruas armado tem 60 a 70 por cento mais chances de ser morto em situação de conflito – a falta de habilidade no uso da arma e o elemento surpresa com que age o agressor costumam ser fatores que concorrem para a ineficácia do recurso às armas.
A não mencionar situações corriqueiras, de que podem ser exemplos o conflito no ambiente doméstico ou no trânsito, que findam por evoluir para uma tragédia pela tão só existência de uma arma ao alcance da mão…
O economista Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), uma das maiores autoridades na matéria, concluiu que o Estatuto do Desarmamento, tornado lei em 22 de dezembro de 2003 e de cunho restritivo, interrompeu a trajetória crescente de homicídios no País.
A relação, portanto, é a inversa da que se quer fazer crer: uma população armada é fator de mais violência.
De mais a mais, não venha o Estado brasileiro se demitir das suas responsabilidades de prover segurança ao nosso povo. A violência é fenômeno complexo, multicausal, e não será resolvido, mas antes agravado, com a instalação de um faroeste tropical no País.
Clique aqui e confira o artigo publicado pelo Jornal O Povo
Hélio Leitão, Presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB.